Era só um ganido baixo, mas resolvi ir lá fora mesmo assim.
Desci no escuro, sem me preocupar - eu já conhecia de cor os passos que tinha que dar.
A camiseta de malha contrastava com o clima, e eu ouvia o gotejar insistente de uma grossa chuva há algumas horas. Não sei por que, então, me assustei ao abrir a porta e ser atingida por uma rajada de vento frio. Fechei a porta, e, desafiadora, abri-a novamente.
Ela estava lá, com o rabo entre as patas, e o pêlo úmido embaraçado. Não quis afagar-lhe as orelhas baixas - deviam estar geladas, mais até do que as minhas mãos - mas fiquei com pena. Entrei em casa, tendo o cuidado de encostar a porta para que a cadela não entrasse, e parti um pedaço de pão murcho. Voltei à varanda e entreguei-lhe o pequeno agrado: ela mordiscou, brincou, depois levou para a casinha e deixou ali; a danada queria mesmo era um carinho. Sorri.
De repente, parou de chover. A sensação do frio na pele já fora amortecida alguns minutos atrás, e disfarçada e esquecida e substituída por outras sensações (embora o frio continuasse ali). O ar da noite era limpo e fresco, e denso. Tão convidativo que eu poderia passar a noite ali fora. Respirei fundo, porque combinava com o tempo e com o ar. Mas o ar entrou-me sufocante pelas narinas, correu largo pelas vias e agarrou-se violentamente à minha garganta, que até senti falhar-me o pulso...
Quem resfolega de um andar apressado, ou solta um ofegar de medo, ou um romântico suspiro, talvez conheça melhor do que eu esse respirar. Mas não devia ser tão pesado o ar noturno.
Fechei a porta, subi no escuro, e já não era só um ganido baixo - eram soluços, cada vez mais altos.
Desci no escuro, sem me preocupar - eu já conhecia de cor os passos que tinha que dar.
A camiseta de malha contrastava com o clima, e eu ouvia o gotejar insistente de uma grossa chuva há algumas horas. Não sei por que, então, me assustei ao abrir a porta e ser atingida por uma rajada de vento frio. Fechei a porta, e, desafiadora, abri-a novamente.
Ela estava lá, com o rabo entre as patas, e o pêlo úmido embaraçado. Não quis afagar-lhe as orelhas baixas - deviam estar geladas, mais até do que as minhas mãos - mas fiquei com pena. Entrei em casa, tendo o cuidado de encostar a porta para que a cadela não entrasse, e parti um pedaço de pão murcho. Voltei à varanda e entreguei-lhe o pequeno agrado: ela mordiscou, brincou, depois levou para a casinha e deixou ali; a danada queria mesmo era um carinho. Sorri.
De repente, parou de chover. A sensação do frio na pele já fora amortecida alguns minutos atrás, e disfarçada e esquecida e substituída por outras sensações (embora o frio continuasse ali). O ar da noite era limpo e fresco, e denso. Tão convidativo que eu poderia passar a noite ali fora. Respirei fundo, porque combinava com o tempo e com o ar. Mas o ar entrou-me sufocante pelas narinas, correu largo pelas vias e agarrou-se violentamente à minha garganta, que até senti falhar-me o pulso...
Quem resfolega de um andar apressado, ou solta um ofegar de medo, ou um romântico suspiro, talvez conheça melhor do que eu esse respirar. Mas não devia ser tão pesado o ar noturno.
Fechei a porta, subi no escuro, e já não era só um ganido baixo - eram soluços, cada vez mais altos.


Um comentário:
muito bom o final!
cara, hoje eu vi uma mulher igualzinha a voce, de costas.
quase tirei uma foto pra te mostrar... rs...
ps: esse texto é uma descrição real ou voce inventou? :B
ou os dois?
=*
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